Carrossel e as polêmicas das novelas do SBT

Carrossel e as polêmicas das novelas do SBT
Carrossel e as polêmicas das novelas do SBT

A novela Carrossel, exibida originalmente pelo SBT em 2012, conquistou uma geração de crianças e adolescentes com suas histórias leves, personagens carismáticos e uma pitada de nostalgia para os mais velhos, já que se tratava de uma adaptação da telenovela mexicana homônima de 1989. 

Ambientada na Escola Mundial, a trama gira em torno da turma da professora Helena, que busca ensinar valores como amizade, respeito e tolerância para uma sala diversa e cheia de personalidades marcantes.

Escola de estrelas

Carrossel não apenas marcou o público, como também lançou alguns dos maiores nomes da televisão brasileira da nova geração.

Carrossel e as polêmicas das novelas do SBT
Foto: Carrossel/reprodução/SBT

Confira alguns nomes:

Larissa Manoela, que interpretou a mimada Maria Joaquina, se tornou um verdadeiro fenômeno teen. Ela estrelou diversas novelas no SBT e depois assinou contrato com a Globo, além de atuar em filmes, séries e desenvolver uma bem-sucedida carreira como influenciadora e empresária.

Maísa Silva, a irreverente Valéria, já era famosa por suas aparições no Programa Silvio Santos, mas consolidou sua imagem com Carrossel. Após isso, ela se tornou apresentadora, escritora e hoje é uma das jovens celebridades mais influentes do país, além de também ter assinado com a Glô. Maísa estrelou a última novela das 18h, Garota do Momento, e ganhou destaque com sua personagem, Bia. 

Jean Paulo Campos, o querido Cirilo, também ganhou o carinho do público. Depois da novela, participou de programas de humor e continua trabalhando como ator, também em novelas da TV Globo, e apresentador.

Carrossel e as polêmicas das novelas do SBT
Foto: Maísa, Jean Paulo e Larissa Manoela/reprodução/Instagram

Sucesso eterno

Apesar do seu tom inocente e educativo, Carrossel também foi palco de diversas polêmicas, que ganharam força principalmente com a revisão crítica que parte do público passou a fazer anos depois da exibição. Com isso, diversas outras novelas da emissora também entraram em pauta.

Mesmo após mais de uma década desde sua estreia, Carrossel continuou sendo um verdadeiro fenômeno cultural, especialmente nas redes sociais. A novela ganhou uma segunda vida com a ascensão de plataformas como o TikTok, onde diversos trechos da trama passaram a circular em vídeos curtos, memes e montagens humorísticas.

Cenas icônicas, como as broncas da professora Helena, as falas cortantes de Maria Joaquina, os desabafos de Cirilo viralizaram entre novos públicos e antigos fãs. Porém, o público agora revisita os episódios com outros olhos.

Foi justamente esse ressurgimento nas redes que acendeu um novo debate sobre os conteúdos da novela. Muitos usuários começaram a comentar de forma crítica sobre situações problemáticas que antes eram naturalizadas, como as falas racistas, os estereótipos gordofóbicos e os comportamentos machistas, temas que na época passaram despercebidos por parte do público, mas que hoje geram desconforto e reflexão.

Essa viralização acabou funcionando como uma espécie de “lupa” sobre o conteúdo da novela. O que antes era visto apenas como entretenimento leve, agora é analisado dentro de um contexto social mais atento.

As Polêmicas de Carrossel

Um dos enredos mais controversos envolve o relacionamento entre Cirilo, um menino negro e humilde, e Maria Joaquina, branca e rica. Ele era apaixonado por ela, mas era constantemente humilhado, rejeitado e desprezado por sua condição social e aparência.

Na época, o público infantil via essa dinâmica como parte da “personalidade difícil” de Maria Joaquina. Entretanto, muitos apontaram o notável racismo nas falas da personagem, que muitas vezes causava desconforto nos próprios atores, como Larissa Manoela relatou em entrevista para o Portal Terra em 2012.  Larissa confessou que se abalava com algumas cenas em que maltratava Cirilo.

“Às vezes, me sinto até mal e choro de verdade. Depois eu abraço, abraço, beijo, beijo o Jean e peço desculpas por ter falado e feito tudo aquilo. Ele entende que é de mentirinha, que é ficção, mas eu fico imaginando que têm pessoas que fazem isso de verdade e deve ser horrível.”, disse ela.

Carrossel e as polêmicas das novelas do SBT
Foto: Larissa Manoela e Jean Paulo Campos na época de ‘Carrossel/AgNews

Outro personagem bem problemático era Jorge, um garotinho loirinho de olhos azuis que passava por dificuldades em casa com os pais. As crianças o consideravam um bully arrogante e suas falas eram frequentemente marcadas por comparações com outros aluno, como exibição de riqueza e desdém por aqueles que considerava inferiores. 

Em um dos momentos mais polêmicos de Carrossel, o vilão mirim Jorge (interpretado por Léo Belmonte) faz um comentário terrível sobre o colega Davi, um personagem judeu.

“Ele é um judeu e tem uma diferença. É o único judeu da classe. Ele é um entre muitos”, comenta o personagem.

Na fala, Jorge afirma ser diferente de Davi pelo simples fato do colega ser judeu. A cena bizarra chocou os fãs, já que o anti-semitismo não se manifesta de forma tão explícita, principalmente em novelas brasileiras.

Não acaba aí

Outros personagens frequentemente alvo de piadas e estereótipos foram Laura e Jaime, retratados como as “crianças gordinhas” da turma. Laura, por exemplo, era vista como carente e desesperada por atenção masculina, enquanto Jaime era o “aluno preguiçoso” e sempre associado à comida.

Essas representações reforçam estereótipos gordofóbicos, promovendo o bullying como humor e associando características negativas exclusivamente ao corpo das crianças.

A novela também trazia episódios com falas machistas, muitas vezes tratadas como piada, além de situações de violência verbal entre os alunos. Havia pouco espaço para o contraditório: personagens que reproduziam comportamentos tóxicos raramente passavam por um processo de aprendizado ou transformação real.

A Professora Helena: Anjo ou Omissa?

Professora Helena, interpretada por Rosanne Mulholland, era considerada a figura ideal de educadora. No entanto, ao reavaliar a trama, muitos internautas começaram a questionar a omissão diante das discriminações e bullying constantes na sala de aula.

Carrossel e as polêmicas das novelas do SBT
Foto: Professora Helena/reprodução/SBT

Por mais que fosse doce e compreensiva, a professora muitas vezes minimizava as agressões ou adotava uma postura neutra diante de situações que exigiam firmeza, como os ataques de Maria Joaquina a Cirilo.

Outras Novelas Polêmicas do SBT (alerta de gatilho)

Carrossel não é o único produto infantojuvenil do SBT envolvido em polêmicas. Chiquititas (2013-2015), por exemplo, apesar de ser querida por muitos, também recebeu críticas relacionadas à estereotipação de personagens. A abordagens superficiais de temas como adoção, abandono parental, falas racistas e até romantização da rivalidade entre meninas era comum na série.

Além disso, no ano de 2022, a ex-atriz mirim Duda Wendling fez uma grave denúncia para o podcast Barbacast. Ela relatou que o SBT encobriu casos de pedofilia que aconteceram na época das gravações de “Cúmplices de um Resgate”, de 2015. “Dentro do SBT, na época que eu trabalhava lá, tiveram dois pedófilos. Um era o nosso preparador de elenco. Ele já estava na prisão, morreu há um mês, estava passando por uma doença”, revelou Duda.

De acordo com ela, os abusos aconteciam na academia de atores do preparador. A garota relatou que ele se aproveitava do momento em que as crianças precisavam ficar de olhos fechados para um exercício para tocar em suas partes íntimas. 

A mais recente novela infantil, “A Caverna Encantada”, da mesma forma, anda passando por alguns problemas entre o elenco, por conta da baixa audiência da produção. De acordo com a revista PurePeople, os responsáveis pelos atores mirins estariam brigando pelo tempo de tela de seus filhos, assim como uma das atrizes do elenco teria culpado as crianças pelo fracasso da novela.

Apesar disso, as novelas do SBT foram, sem dúvida, um marco na dramaturgia infanto juvenil brasileira, revelando talentos e emocionando gerações. No entanto, à luz dos debates atuais, fica claro que muitas de suas mensagens precisavam de um olhar mais responsável. É importante lembrar que não se trata de “cancelar” produções antigas, mas sim repensar narrativas e construir um entretenimento infantil mais acolhedor, consciente e inclusivo.

Giovanna de Paula

Nascida em 2003 no interior do Rio de Janeiro, jornalista em formação pela UFRJ e entusiasta da versatilidade e poder da comunicação. Desde cinema e música pop até história e política, amo poder estudar, escrever e comunicar sobre diferentes pontos que fazem o mundo o que ele é, e suas intersecções.

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