“Coração de Ferro” encerra era de excessos da Marvel com uma série atrasada

“Coração de Ferro” encerra era de excessos da Marvel com uma série atrasada
Gravada em 2022, a série encerra o modelo falido de minisséries do estúdio (Reprodução/Marvel Studios)

Após anos de atraso, Coração de Ferro finalmente chegou ao Disney+, marcando o retorno de Riri Williams após sua participação em Pantera Negra: Wakanda Para Sempre. No entanto, a estreia veio cercada de polêmicas e deixou um gosto bem agridoce no final.

Filha direta do período de produção em massa da Disney, que gerou bombas como Invasão Secreta, Ms. Marvel, Obi-Wan e The Acolyte, Coração de Ferro resgata (ou pelo menos tenta) o coração narrativo do UCM ao abordar o legado de Tony Stark e a construção de uma heroína negra, jovem e complexa… mesmo que tudo isso pareça chegar alguns anos atrasado demais.

Um adeus ao formato de seis horas da Marvel

Coração de Ferro marca o fim de uma era bem controversa no UCM. A série estava pronta desde 2022, vinda da mesma leva de produções apressadas e mal recebidas como Ms Marvel, Invasão Secreta e Echo, todas feitas dentro do infame modelo de “filmes de 6 horas” disfarçados de séries. Desde o início, ela já parecia atrasada, por ter sido gravada antes da greve dos roteiristas em Hollywood, e muito antes da Marvel desacelerar e tentar reorganizar a casa.

Dá claramente para sentir que ela é fruto de uma Marvel/Disney que ainda achava que só o selo da marca era suficiente para vender, sem se preocupar tanto com qualidade ou timing. Apenas recentemente, o estúdio pareceu entender que suas séries precisavam de um showrunner criativo por trás, alguém que tratasse essas produções como séries de verdade, e não apenas filmes esticados. O reflexo dessa mudança já pode ser visto com Demolidor: Renascido, que enfim adota um formato mais adequado para TV.


Riri Willians e a Gangue do Capuz (Reprodução/Marvel Studios)

Uma heroína carismática e complexa em Coração de Ferro

Antes de ganhar sua própria série, Riri Williams (Dominique Thorne) foi introduzida em Pantera Negra: Wakanda Para Sempre (2022), como uma jovem genial do MIT que criou uma armadura de ferro caseira capaz de rivalizar com a do próprio Tony Stark. Agora, em Coração de Ferro, acompanhamos sua origem como heroína. Se passando em Chicago, a trama gira em torno da relação de Riri com sua comunidade, seu passado, e suas tentativas ilegais de conseguir dinheiro e tentar crescer na vida.

A adolescente representa o sonho obsessivo de estar entre os grandes, porém sempre ficando entre o bem e o mal, em uma jornada mais sombria e egoísta do que o típico padrão da Marvel. Mesmo com cenas que viralizaram tentando diminuir a personagem com trechos fora de contexto (em que Riri supostamente desdenha de Tony Stark), a série deixa claro desde o início que ela respeita o legado de seu ídolo.


Cena que acabou viralizando fora de contexto, onde a personagem supostamente “desdenha” de Tony Stark (Reprodução/Nerdonautas)

Ao seu lado, temos a adorável Natalie (Lyric Ross), uma Inteligência Artificial que emula sua falecida melhor amiga. A IA é engraçada, simpática e importantíssima para o arco emocional da protagonista, e depois da última cena da série, seria ótimo rever a personagem no futuro.


N.A.T.A.L.I.E, a IA de Riri Willians é uma das melhores e mais divertidas adições ao UCM (Reprodução/Marvel Studios)

A magia com tecnologia em Coração de Ferro

Aquele que não deve ser nomeado, o cramunhão com M, deu finalmente as caras no UCM… A tão aguardada chegada de Mephisto finalmente aconteceu, mas não rendeu tanto quanto poderia. Para quem estava presenciando o auge das teorias sobre o personagem enquanto assistia WandaVision em 2021, sua aparição aqui parece mostrar que a Marvel chegou atrasada para a própria festa.

Mostrando mais um dos motivos para Coração de Ferro ser uma série que chegou com anos de atraso, já que supostamente ela deveria ter saído há 3 anos, ainda no auge das especulações. Na mesma época que Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, ou até Agatha Desde Sempre, que seriam lugares melhores para mostrar o personagem em toda sua glória.


Após 4 anos de teorias sobre o personagem, parece que a Marvel chegou atrasada para a própria festa

Pelo menos, aqui temos uma ideia ótima, que já deveria ter sido usado no UCM antes: a mistura entre magia e tecnologia. Aqui temos a fusão entre os conceitos de Homem de Ferro, Doutor Estranho, Pantera Negra e Agatha. A introdução da personagem Zelma Stanton, uma jovem mística que interage com Riri, abre portas para uma possível adaptação da Strange Academy, algo que pode trazer novas camadas ao lado místico da Marvel.

Explorando um legado atrasado

Coração de Ferro é fruto de uma ideia que já estava dando sinais de cansaço em 2022. Quando o plano ainda era de uma suposta conexão com diversas séries e filmes, com Jonathan Majors sendo o principal vilão da saga do multiverso, e com Vingadores: Dinastia Kang ainda existindo, o futuro da saga foi totalmente reescrito desde aquele ano.

E é justamente aí que está um dos principais problemas da série: ela gira em torno do legado de Tony Stark… mas o próprio Robert Downey Jr. já está confirmado para retornar em Avengers: Doomsday. Desde Ultimato, o luto por Tony Stark já foi explorado nos dois filmes do Homem-Aranha de Tom Holland. A série Guerra das Armaduras, que poderia complementar essa história, segue no limbo. Ou seja, tudo já parece irrelevante.

Uma série atrasada e cheia de pontas soltas

Por mais que eu goste de uma construção ao longo de várias produções, o estúdio nos últimos anos tem plantado várias sementes sem saber quando elas serão colhidas. Por isso, não sabemos quando e nem aonde, veremos a continuação da história de Riri Willians.

Com a quantidade de ganchos deixados ao final, podemos considerar a série como incompleta, e se planejavam uma segunda temporada, talvez a expectativa não seja tão animadora.

Antes mesmo do lançamento, a série foi alvo de um intenso review bomb nas redes sociais e sites de críticas, recebendo uma enxurrada de avaliações negativas motivadas mais por preconceito do que pela própria série, como já discutimos nesta matéria anterior do Amargurado. Assim, ela se juntou à crescente lista de produções do estúdio que sofrem ataques e rejeição antecipada apenas por trazerem protagonistas que fazem parte de grupos minoritários.

Como se não bastasse, o estúdio escolheu um péssimo momento para lançar a série: às vésperas de um dos seus maiores e mais esperados lançamentos, Quarteto Fantástico. O timing errado pode manchar ainda mais a imagem da franquia e prejudicar as expectativas do público.

No fim das contas…

Coração de Ferro está longe de ser um desastre como algumas outras séries do UCM. É uma série que tem coração (literalmente e figurativamente), identidade e temas relevantes, mesmo que não sejam totalmente explorados. Mas também é um produto de uma fase bagunçada da Marvel, que ainda acreditava que quantidade era qualidade, e que o selo Marvel bastava.


Confira o trailer de “Coração de Ferro” (Reprodução/YouTube/Marvel Brasil)

Se conseguirmos ver Riri Williams novamente em Doomsday, ou quem sabe em algum filme dos Jovens Vingadores, talvez a personagem ganhe mais importância. Por enquanto, fica como um retrato de um UCM que está em transição, entre o passado glorioso e um futuro que ainda precisa ser construído com mais cuidado, planejamento e coração. Senão, teremos mais uma personagem no limbo, assim como os Eternos e o Cavaleiro da Lua.


E você, já assistiu “Coração de Ferro”? Concorda com as críticas e o hate que a série sofreu? Conta pra gente nos comentários!

Joshua Diniz

Carioca e Caxiense, nascido em 2003, estudante de Comunicação Social- Jornalismo na UNISUAM. Obcecado por tudo que envolva Cultura Geek, games, super-heróis e universos fantásticos. Fã apaixonado de música Folk e Indie, de The Lumineers a Wallows.

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