Quando a demora atrapalha: os desafios de um elenco mirim

Quando a demora atrapalha: os desafios de um elenco mirim
Quando a demora atrapalha: os desafios de um elenco mirim

Crianças crescem. Parece óbvio, mas essa frase resume um dos maiores desafios de quem produz séries e filmes com elenco infantil. O tempo de filmagem precisa ser rápido. Caso contrário, atores que deveriam parecer adolescentes voltam para a tela com aparência adulta. Assim, quando a produção atrasa, a magia da infância se perde.

Esse problema já atingiu diversas franquias de sucesso pelo mundo inteiro. Em alguns casos, o atraso foi causado pela pandemia. Em outros, a demora veio de decisões criativas ou burocráticas. O resultado, porém, foi o mesmo: personagens que deveriam estar no ensino médio acabaram interpretados por atores já na casa dos vinte anos.

Stranger Things e o impacto do tempo

A série Stranger Things é um dos exemplos mais característicos que começou com um elenco mirim carismático, mas os atrasos entre temporadas acabaram mudando tudo. O hiato entre a terceira e a quarta temporada foi de três anos por conta da pandemia. Além disso, durante as gravações da 5ª temporada, Hollywood enfrentou uma grande greve, onde diversas produções foram paralisadas. Nesse meio tempo, os atores cresceram e mudaram muito fisicamente.

Hoje, muitos já passaram dos 20 anos, mas continuam interpretando adolescentes do ensino médio. Millie Bobby Brown, que interpreta Eleven desde os 11 anos, agora com 21, chegou até mesmo a casar. A diferença ficou evidente para o público e gerou discussões nas redes sociais. Para lidar com isso, a produção já admitiu que vai usar maquiagem, figurino e até efeitos digitais nesta última temporada. Desse modo, a intenção é convencer os fãs de que os personagens ainda são jovens.

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Foto: Elenco de Stranger Things atualmente/reprodução/Netflix

Shazam e a espera entre filmes

No cinema, o caso de Shazam! chama atenção. O primeiro longa chegou em 2019. A continuação, Shazam! Fury of the Gods, só estreou em 2023. Entre um filme e outro, o elenco adolescente mudou completamente. Alguns atores cresceram tanto que a produção precisou adaptar a narrativa.

Grace Caroline Currey, por exemplo, acabou interpretando tanto a versão adolescente quanto a adulta da personagem Mary. Dessa forma, a escolha deixou claro como é difícil manter a continuidade em histórias de heróis adolescentes quando o intervalo entre gravações é tão longo.

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Foto: Cena de Shazam! Fúria dos Deuses/reprodução/Warner Bros

It: Capítulo 2 e o de-aging digital

O terror também sofreu com o mesmo dilema. Em It: Capítulo 2, a trama se concentra nos personagens já adultos. No entanto, o roteiro exigia vários flashbacks com o elenco infantil do primeiro filme. O problema foi que, em apenas dois anos, os atores já tinham crescido demais.

A saída encontrada pela produção foi o uso de tecnologia de rejuvenescimento digital. As vozes também precisaram ser alteradas em estúdio. Logo, com isso, os custos aumentaram, e o público percebeu a diferença. Mais uma vez, o tempo provou ser um inimigo poderoso de quem aposta em histórias com elenco mirim.

Quando a demora atrapalha: os desafios de um elenco mirim
Foto: Cena de IT: A Coisa/reprodução/Warner Bros

Percy Jackson: erros e acertos

O caso de Percy Jackson mostra dois caminhos diferentes. Nos filmes da década de 2010, a produção optou por escalar atores mais velhos. Logan Lerman, que tinha cerca de 17 anos, interpretava um personagem de apenas 12, logo, a trama foi adaptada para o ensino médio. O problema ficou ainda mais evidente na continuação, quando o ator já tinha 21 anos.

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Foto: Percy Jackson e o Ladrão de Raios/Logan Lerman/reprodução/Fox

A diferença entre a idade real e a idade do personagem comprometeu a proposta da saga, que é acompanhar a jornada de um herói ainda criança. Não por acaso, a adaptação recebeu muitas críticas.

Anos depois, a Disney+ lançou a nova série baseada nos livros. Dessa vez, o estúdio corrigiu a falha escalando um elenco na idade certa. Além disso, a ideia é manter uma cadência de gravações que respeite o crescimento natural dos atores, que naturalmente, já estão bem diferentes de quando filmaram a primeira temporada. Com esse planejamento, a produção espera evitar os erros cometidos no passado.

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Foto: Elenco de Percy Jackson e os Olimpianos/reprodução/Disney+

Por que é tão difícil trabalhar com elenco mirim?

Trabalhar com elenco infantil parece encantador, mas na prática é uma missão cheia de obstáculos. Isso porque o crescimento dos jovens é rápido e inevitável. Em apenas um ano, a voz muda, o corpo se transforma e a expressão facial já não é a mesma.

Além disso, existem restrições legais que limitam o tempo de trabalho de crianças em set de filmagem. Por consequência, as gravações se tornam mais longas, caras e desgastantes. Em séries e sagas de cinema, esse ritmo lento acaba pesando.

Outro fator importante é o calendário de Hollywood. Produções com muitos efeitos especiais ou envolvidas em greves e burocracias podem demorar anos para serem finalizadas. Nesse tempo, o elenco mirim já deixa de parecer tão mirim assim.

Mas o que pode ser feito? A primeira solução é o planejamento. Estúdios precisam gravar de forma mais ágil e evitar longos intervalos entre temporadas. Outra saída é incorporar a passagem do tempo na narrativa, como forma de justificar o crescimento natural dos personagens. Em último caso, recorrem a recursos digitais, embora essa solução seja cara e nem sempre convincente.

O que aprendemos com esses casos

Assim, a demora pode gerar inconsistências visuais e até comprometer a imersão do público. Para evitar isso, estúdios têm duas opções: acelerar cronogramas ou assumir na narrativa a passagem do tempo.

No fim, a lição é clara. Crianças crescem. E quando o calendário de Hollywood não acompanha esse ritmo, a continuidade das histórias sofre.

Giovanna de Paula

Nascida em 2003 no interior do Rio de Janeiro, jornalista em formação pela UFRJ e entusiasta da versatilidade e poder da comunicação. Desde cinema e música pop até história e política, amo poder estudar, escrever e comunicar sobre diferentes pontos que fazem o mundo o que ele é, e suas intersecções.

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