“Boots” é propaganda militar? É homofóbica?

“Boots” é propaganda militar? É homofóbica?

Netflix estreou no dia 9 de outubro de 2025 a série Boots, uma das produções mais comentadas do mês. Com oito episódios de cerca de uma hora cada, a história se passa nos Estados Unidos dos anos 1990, período em que ser gay nas Forças Armadas ainda era ilegal.

O protagonista é Cameron Cope, interpretado por Miles Heizer, um jovem de 18 anos que decide se alistar junto com seu melhor amigo Ray McAffey (Liam Oh). A mãe de Cameron, Barbara, é vivida por Vera Farmiga, e o instrutor Sullivan, papel de Max Parker, surge como uma das figuras mais complexas da trama. A série é inspirada no livro The Pink Marine, escrito por Greg Cope White, que narra suas memórias reais como um recruta gay no serviço militar americano durante uma época marcada por repressão e preconceito.

Logo de início, Boots mostra a que veio. Achei a série muito, muito boa mesmo. Ela vai direto ao ponto, sem enrolar, e 90% da ação se passa no alojamento, o que dá um clima sufocante e intenso — quase como se o espectador também estivesse preso naquele ambiente.

Miles Heizer, mesmo já tendo passado dos 30 anos, convence completamente como um adolescente confuso e vulnerável. O elenco todo entrega muito: a química entre os personagens é natural, mesmo com tantas rivalidades dentro da história. Angus O’Brien, que interpreta Hicks, é sensacional como alívio cômico, e Max Parker carrega boa parte da carga dramática entre os coadjuvantes. Vera Farmiga, ainda que seja figurante de luxo, não é apenas uma encheção de linguiça na trama, e traz cenas interessantes.

Elenco de Boots nos bastidores.

Os pontos mais criticados por parte do público têm sido a suposta propaganda militar e a falta de romance gay. Sinceramente, não concordo com nenhuma das duas reclamações. Primeiro, porque é uma história baseada em fatos reais — e segundo, porque nem toda produção com personagens gays precisa girar em torno de um romance. Nesse contexto, um relacionamento amoroso seria praticamente impossível de manter sem riscos. Boots não é uma série sobre paixão, e sim sobre sobrevivência e identidade. Ela mostra o peso de ser quem você é em um ambiente onde isso podia acabar com sua vida.

Dizer que a série é propaganda militar me parece um equívoco. Ao contrário, ela evidencia os aspectos mais sombrios daquele meio: humilhações, preconceito racial, misoginia, homofobia, tortura psicológica e uma cultura de violência institucional. O retrato é crítico e incômodo, não glorificante. É claro que, mesmo nos piores ambientes, ainda existem momentos de união e descontração — e não há nada de errado em mostrar isso. A vida não é feita apenas de dor, mesmo dentro de um quartel.

Entre os destaques, Sullivan é, para mim, um dos personagens mais interessantes da série. Ele carrega um ódio profundo por si mesmo, uma homofobia internalizada que se transforma em ataques ao protagonista. Ver essa transformação, de opressor para uma espécie de mentor, é uma das melhores construções da temporada. É como se a série usasse ele para refletir sobre o que acontece quando alguém passa a vida lutando contra a própria identidade.

Ainda não há confirmação oficial de uma segunda temporada, mas há espaço de sobra para continuar a história. O verdadeiro Greg Cope White serviu seis anos no exército, então há muito terreno para explorar.

Lucas Martins

Nascido em 2002 na cidade do Rio de Janeiro, cresci com paixão pela literatura e pela música. Sou Bacharel em Publicidade e Propaganda pela Unicarioca e futuro pedagogo pela UERJ. No meu tempo livre, gosto de assistir a filmes e acompanhar cada passo dado por Taylor Swift.

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