O grito de renascimento: Florence retorna com o intenso “Everybody Scream”
Desde jovem, Welch foi atraída por temas como espiritualidade, mitologia, morte e amor, elementos que mais tarde se tornariam centrais em sua obra.
Antes da fama, ela se apresentava em bares e clubes londrinos, misturando performances intensas e improvisadas. Em 2007, formou o Florence + The Machine, projeto que combinava sua voz marcante com arranjos orquestrais e atmosferas góticas. O grupo ganhou destaque com o álbum Lungs (2009), que revelou hits como “Dog Days Are Over” e “Cosmic Love”.
Nos anos seguintes, Florence consolidou sua imagem como uma das artistas mais teatrais e singulares da música britânica. Ceremonials (2011) e How Big, How Blue, How Beautiful (2015) exploraram o equilíbrio entre espiritualidade e dor, enquanto High as Hope (2018) trouxe uma abordagem mais íntima e vulnerável. Já Dance Fever (2022) marcou um retorno à energia ritualística e corporal — ponte direta para Everybody Scream (2025).
Fora dos palcos, Welch é conhecida por seu estilo etéreo e por declarações francas sobre saúde mental, vícios e autoconhecimento. Em entrevistas, ela já revelou lutas contra ansiedade, alcoolismo e a dificuldade de equilibrar o sucesso com a vida pessoal.
Um retorno envolto em mistério e transformação
Três anos após Dance Fever (2022), Florence + The Machine retorna com Everybody Scream, lançado curiosamente no Halloween, 31 de outubro de 2025. O álbum marca uma nova fase na carreira da banda britânica, em que a grandiosidade poética de Florence Welch se alia a uma sonoridade mais crua e intensa.
Inspirado em experiências pessoais marcadas por dor e superação, o disco se constrói como um ritual de purificação. Em entrevista ao “Guardian”, A cantora revelou ter enfrentado uma gravidez ectópica em 2023, evento que influenciou profundamente a composição das letras e o conceito do projeto, e contou que ao retornar do hospital uivou de alívio, soltou do peito um som tão alto e profundo que, segundo ela, mais parecia o grito de um animal ferido. Apenas dez dias após o procedimento, voltou aos palcos, movida por uma força que descreve como seu lado animal.
A cantora reflete que “o mais próximo que chegou de gerar uma vida foi também o mais perto que chegou da morte”. O quão transformadora pode ser uma experiência dessas? Talvez, o grito, presente no título, simboliza libertação e enfrentamento, um eco entre corpo, voz e espiritualidade.
Segundo ela, nada mudou muito, apenas tomou maior consciência da própria força. E, de fato, a música do novo disco mostra que não houve grandes mudanças. As escolhas de Florence falam menos sobre reinvenção e mais sobre sobrevivência.
Estética ritualística e som visceral
Com produção assinada por Aaron Dessner (Folklore), Mitski e Mark Bowen (IDLES), Everybody Scream mantém o estilo épico característico do grupo, mas apresenta uma abordagem mais densa e orgânica. Guitarras distorcidas, percussões tribais e arranjos corais criam um ambiente ritualístico, em que cada faixa conduz o ouvinte a uma catarse coletiva.
O álbum, que se inicia com um cortejo na faixa-título, apresenta uma boa guinada ao rock alternativo na sequência de trabalhos de Florence, algo que não se via desde os momentos mais pesados de “How Big, How Blue, How Beautiful” (2015). O fuzz das guitarras nas duas primeiras faixas imprime essa certa rebeldia em não atender às expectativas.

Florence mantém o cabelo vermelho e suas maiores virtudes intactas: a voz de sirene angelical e a música orquestral que oscila entre o etéreo e o sombrio. No entanto, justamente por preservar essa essência, as imagens poderosas de “Everybody Scream” nem sempre reverberam na sonoridade. A liberdade conquistada “do corpo e da dor” não se apresenta como ousadia criativa, mas se percebe na autonomia de se declarar livre das expectativas do público, dos gêneros e da indústria.
A faixa-título que abre o álbum é uma convocação coletiva. Entre tambores tribais e vocais em coro, Florence grita — literalmente — em “Sympathy Magic”contra o esgotamento, a exposição e o peso da performance. É um início catártico que define o tom do projeto. Em “One of the Greats”, o ritmo desacelera e o foco se desloca para a ambição artística e o medo de se perder dentro dela. Já “Perfume and Milk” traz um momento de pausa e cura, com instrumentação minimalista e voz quase sussurrada. “The Old Religion”, por sua vez, resgata símbolos pagãos e a busca por transcendência, numa combinação de drama e contemplação.
Entre o horror e a beleza
Visualmente, o disco reforça a teatralidade de Florence Welch. O encarte e os videoclipes trazem referências ao horror folclórico britânico e à estética da bruxaria, em uma fusão entre o sagrado e o profano. Essa construção imagética se reflete na própria sonoridade: cada música parece encenar uma passagem de um filme, costurando drama, medo e redenção.
O poder feminino e grandioso se manifesta em “Kraken”, faixa pop em que o pré-refrão segue a fórmula do maior hit da artista, “Dog Days Are Over”. Essa estrutura, presente desde Lungs (2009), alterna arranjos floridos com cordas e metais soturnos, aliviando a tensão dos versos, que são bem visuais: “My tentacles so tender as I caress your cheek/ Did you know how big I would become?/ And how much I would eat?
Contudo, a apreciação do novo álbum depende, em certa medida, do conhecimento prévio da jornada de Florence. “Everybody Scream” funciona, portanto, quase como um culto para os já convertidos a sua “old religion”. Ainda que isso não pese a favor do disco, a experiência ganha força quando se lembra de “King”, single do álbum anterior “Dance Fever” (2022).
A obra também se destaca por sua coesão narrativa. Em vez de singles isolados, Everybody Scream se apresenta como uma jornada completa, na qual dor e beleza coexistem.
O álbum como rito de passagem
A Pichtfork tem descrito o disco como um dos trabalhos mais poderosos da carreira de Welch. A mistura entre confissão e performance, vulnerabilidade e força, mantém o equilíbrio que sempre caracterizou a banda. Ainda que o sofrimento seja o ponto de partida, o resultado não é melancólico — é afirmativo. O grito, aqui, não é de desespero, mas de existência.
Em tempos de consumo acelerado, Everybody Scream convida à escuta atenta e profunda. É um disco que não busca respostas fáceis, mas oferece uma experiência sensorial e emocional rara — um verdadeiro rito de passagem em forma de som, onde cada batida e cada verso relembram o que significa existir e recomeçar.

