Pedro Sampaio, Glória Groove e a “música de hétero ou de gay?”

Pedro Sampaio, Glória Groove e a “música de hétero ou de gay?”

Algumas coisas da infância persistem em continuar na vida adulta. Sabe quando você escolhe um brinquedo e questionam dizendo que aquilo é de menina ou menino? Triste, não é? Pois, infelizmente, na internet isso ainda evolui para “coisa de gay ou de hétero” em todos os âmbitos, mas principalmente na música.

Pedro Sampaio vive isso de forma bastante clara. Há um tempo, o DJ e produtor se assumiu bissexual. A notícia, como era de se esperar, veio acompanhada de comentários preconceituosos e de uma curiosidade invasiva sobre sua vida pessoal. Apesar de hoje ele ter um relacionamento fechado com um homem, muita gente sequer sabe disso. No mercado musical brasileiro, que ainda é complicado e conservador em vários níveis, essa “discrição involuntária” acaba sendo vista até como algo positivo para a carreira, o que já diz muito sobre o problema.

O incômodo maior veio quando começaram a surgir comentários dizendo que Pedro estaria fazendo mais “música de gay”. Um exemplo citado com frequência é Sequência Cunt, parceria com Irmãs de Pau. Como se o fato de dialogar com a cultura LGBTQIA+ automaticamente deslegitimasse a música ou a afastasse de um público mais amplo. Pedro respondeu a isso com ironia e lucidez. “Encaro dizendo que em breve vai ter Pedro só para baixinhos também, então vai ter para todo mundo inclusive. Vou começar uma turnê nos asilos, então vai ter para todo tipo de gente, tô brincando [risos]. Eu acho que é um pensamento limitado, a música não tem fronteira, a música é para todo mundo. Se você gosta daquilo, você vai ouvir, independentemente da sua sexualidade, do seu gênero, da sua cor, enfim. Eu sempre fiz música pensando no todo e não individualmente. Eu não rotulo ou etiqueto música pelo gênero e sexualidade.”

A fala é simples, mas escancara o óbvio que muita gente se recusa a aceitar. Música não nasce com orientação sexual. Quem tenta impor isso está mais interessado em controlar narrativas do que em ouvir arte.

Pedro Sampaio no clipe de “SEQUÊNCIA CUNT”.

Esse debate também atravessa a trajetória de Glória Groove. Artista que começou no rap, passou pelo pop, pelo funk, pelo R&B e mais recentemente pelo pagode, a drag sempre foi conhecida pela versatilidade. Ainda assim, quando mergulhou de vez no pagode, surgiram ataques vindos da própria comunidade LGBTQIA+. O argumento era curioso: ela estaria fazendo “música de hétero”.

Esse debate também atravessa a trajetória de Glória Groove. Artista que começou no rap, passou pelo pop, pelo funk, pelo R&B e mais recentemente pelo pagode, Glória sempre foi conhecida pela versatilidade. Ainda assim, quando mergulhou de vez no pagode, surgiram ataques vindos da própria comunidade LGBTQIA+. O argumento era curioso e cruel: ela estaria fazendo “música de hétero”. Como se o gênero musical tivesse dono. Como se pessoas heterossexuais não pudessem ouvir algo feito por uma drag queen. Ou pior, como se uma artista LGBTQIA+ tivesse a obrigação de produzir apenas dentro de um estereótipo esperado.

Glória falou abertamente sobre isso. “A primeira fase foi triste. Escancarou o vira-latismo que a minha comunidade tem quando uma de nós tenta fazer algo diferente. Fiquei muito decepcionada com comentários que li, pessoas desprezando o que ‘Serenata da GG’ poderia ser antes mesmo de conhecerem o projeto”, lamentou. E completou: “Ouvi diversas vezes, dentro da minha comunidade, que estou fazendo um conteúdo ‘para o público hétero’. Sempre fiz música para todos e não é de hoje que eu não me encaixo perfeitamente nos moldes. Sou uma drag queen que vem do rap, que vem da zona leste, que fala de funk e vivência de quebrada. Não seria novidade eu não ser aceita por todo mundo.”

No fundo, esse pensamento é não só limitante, mas excludente. Há moldes musicais ligados à orientação sexual? Um homem gay precisa ouvir exclusivamente Lady Gaga e não pode dar play em Filipe Ret? Por quê? Quem decide isso? Quando a própria comunidade passa a reproduzir essas barreiras, o discurso de liberdade vira contradição.

Lucas Martins

Nascido em 2002 na cidade do Rio de Janeiro, cresci com paixão pela literatura e pela música. Sou Bacharel em Publicidade e Propaganda pela Unicarioca e futuro pedagogo pela UERJ. No meu tempo livre, gosto de assistir a filmes e acompanhar cada passo dado por Taylor Swift.

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