Byler e o queerbaiting: será que é isso mesmo?

Byler e o queerbaiting: será que é isso mesmo?

“Stranger Things” é uma das séries mais icônicas do século, tem personagens amados e dezenas de teorias para serem resolvidas. Então, chega a ser engraçado que o assunto mais comentado após o volume 2 da quinta temporada seja o ship Byler, que envolve Mike Wheeler e Will Byers.

Depois da cena em que o personagem vivido por Noah Schnapp se assume, parte do público finalmente caiu na real de algo que já estava claro há muito tempo.

O roteiro expõe que Mike ocupa na vida de Will um papel muito específico, de primeiro crush que ajuda ele a perceber a própria sexualidade, mas que nunca seria capaz de corresponder. A comparação com a Tammy é a cereja no bolo.

Para uma parcela dos fãs, essa resolução foi frustrante. O sentimento de decepção rapidamente se transformou em acusações de queerbaiting, termo usado quando uma obra supostamente sugere um romance entre personagens do mesmo sexo apenas para atrair a atenção da comunidade LGBT, sem nunca ter a intenção real de concretizar isso. No entanto, ao observar Stranger Things com um pouco mais de distanciamento, é difícil sustentar essa tese.

Fanart de Byler.

As pistas sobre a sexualidade de Will existem desde a primeira temporada e ficam mais evidentes a partir da terceira, o que mostra uma preocupação dos roteiristas em construir esse arco de forma gradual. Mike, por outro lado, nunca apresentou indícios reais de um interesse romântico por Will. Desde os primórdios da série, ele está envolvido afetivamente com a Eleven, e esse relacionamento sempre foi tratado como central na narrativa. Não há sinais claros de ambiguidade ou de um jogo duplo por parte do roteiro nesse sentido.

O problema é que, muitas vezes, queerbaiting acaba sendo confundido com algo bem mais simples e talvez mais desconfortável de admitir, a ideia de que “meu casal dos sonhos não rolou”. A partir daí, surgem análises que se apoiam em cenas isoladas, olhares interpretados fora de contexto e edições que forçam uma leitura romântica onde ela não existe. Com esse tipo de lógica, seria possível afirmar que praticamente qualquer dupla de personagens se ama, desde que haja disposição para recortar momentos específicos e ignorar o todo.

Além disso, Stranger Things conta com um casal lésbico explícito, mas que muitas vezes é ignorado por parte do fandom em favor de um ship que nunca existiu de fato na narrativa. Esse comportamento não é novo. Glee passou por algo parecido com a idolatria em torno de Quinn e Rachel, que também gerou acusações de queerbaiting, ainda que em menor escala. Teen Wolf talvez seja outro dos exemplos mais lembrados dessa dinâmica.

Shippar é legítimo, faz parte da cultura de fãs e não há nada de errado nisso. O problema surge quando a frustração vira acusação e quando se perde de vista que o público não escreve as séries que consome. Nenhuma obra tem obrigação de atender a cem por cento das expectativas de quem assiste. Aliás, é até saudável que não tente. Nem todo afeto precisa ser romântico, e nem toda história precisa se moldar aos desejos do fandom para ser válida ou relevante.

Lucas Martins

Nascido em 2002 na cidade do Rio de Janeiro, cresci com paixão pela literatura e pela música. Sou Bacharel em Publicidade e Propaganda pela Unicarioca e futuro pedagogo pela UERJ. No meu tempo livre, gosto de assistir a filmes e acompanhar cada passo dado por Taylor Swift.

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