Opinião: é impossível vencer o desafio de ser preta no BBB
Assistir ao BBB há tantos anos é também observar padrões que se repetem. Hoje, iremos abordar um dos maiores e mais difíceis de se encarar.
Ser mulher preta dentro da casa mais vigiada do país parece sempre significar jogar com uma régua diferente, mais pesada, mais cruel e quase impossível de equilibrar.
No BBB 26, Tia Milena é chamada por parte do público de insuportável, provocadora e até desumana. A intensidade das críticas chama atenção, principalmente quando se compara com outros participantes que tiveram posturas semelhantes. Bia do Brás também confrontou adversários durante o almoço e tinha uma personalidade complicada de se conviver. Davi Brito construiu boa parte da sua trajetória caçando embates. Em nenhum desses casos a reação foi atravessada por termos que desumanizam pelo público, pelo contrário, fez com que se tornassem favoritos.
É evidente que qualquer pessoa pode desgostar de um participante. Isso faz parte da dinâmica do programa. O problema é perceber que, quando se trata de mulheres pretas, a crítica ganha contornos históricos. Palavras como mucama, serviçal, sinhá e patroa voltam a circular com uma naturalidade assustadora. Leidy no BBB 24, Thelma no BBB 20 e agora Milena enfrentaram esse tipo de narrativa. Não é coincidência, mas um reflexo de como a sociedade ainda carrega seus preconceitos, mesmo que finja que isso não acontece.
JÁ QUE É PRA TOMBAR…
O caso de Karol Conká é outro exemplo que até hoje é usado como argumento pronto. Ela virou um símbolo de rejeição e frequentemente é citada como se representasse um padrão. Há quem diga que, se fosse branca, não teria saído com tamanho índice de ódio. Ao mesmo tempo, muita gente que hoje levanta essa hipótese foi responsável por destilar ataques violentos contra a artista. Usar essa pauta de forma oportunista esvazia o debate e transforma racismo estrutural em peça de conveniência.
Outro ponto recorrente é a suspeita constante sobre amizades interraciais. Toda vez que uma mulher preta cria laços com uma mulher branca dentro da casa, surge a teoria da hierarquia. Thelma, médica bem-sucedida, independente e firme, foi vista por parte do público como subordinada das amigas. Leidy Ellen com Yasmin e Milena com Ana Paula passaram pelo mesmo crivo. Curiosamente, amizades masculinas como a de Felipe Prior e Babu Santana nunca foram analisadas sob essa lente. Ninguém questiona se Ana Paula e Samira seriam amigas aqui fora. Por que essa dúvida aparece sempre quando a amizade envolve uma mulher preta?
Há ainda a diferença de tratamento nas punições simbólicas. Quando Jordana prejudicou a favorita do público, na situação dos dominós, a reação foi dura, mas não a prejudicou tanto. Já Leidy, ao jogar a mala de Davi na piscina, foi tratada como se tivesse cometido algo inédito, mesmo sendo um gesto clássico do programa. A cobrança extrapolou o jogo e chegou ao ao vivo com um peso desproporcional.
Sim, mulheres negras já venceram o reality, como Gleice Damasceno e Thelma Assis. Ainda assim, suas vitórias foram e continuam sendo questionadas. O ponto não é blindar ninguém de críticas. É reconhecer que, dentro e fora da casa, a sociedade insiste em cobrar dessas mulheres uma perfeição que não é exigida dos demais.


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