“Os Roses: Até Que a Morte os Separe” entrega humor ácido e reflexões amargas
Os Roses: Até Que a Morte os Separe apresenta a vida aparentemente perfeita de Ivy e Theo, um casal inglês que passa a morar nos Estados Unidos. Ela, uma chef de cozinha talentosa que atende a uma clientela seleta. Ele, um arquiteto renomado, respeitado no meio. O casamento parecia impecável, cheio de amor, carinho e dois filhos que completavam a imagem de família de comercial de margarina. Mas a ilusão não dura muito.

Produção renomada
A narrativa pega uma história comum entre muitos casais. Tudo começa a ruir quando um contratempo em uma das construções de Theo abre espaço para ressentimentos guardados. Aos poucos, uma competição silenciosa toma forma. A carreira de Ivy decola, enquanto a dele despenca. O que parecia ser apenas um revés profissional se transforma em uma bomba emocional, pronta para explodir em mágoas, disputas públicas e provocações afiadas disfarçadas de “personalidade inglesa”.
O longa tem base sólida: é inspirado no romance A Guerra das Rosas, de Warren Adler. O roteiro, por sua vez, leva a assinatura de Tony McNamara, de Pobres Criaturas. Além disso, o elenco chama muita atenção. Andy Samberg, Ncuti Gatwa, Allison Janney e Kate McKinnon aparecem em participações que reforçam a narrativa. Mas é impossível não destacar o protagonismo de Benedict Cumberbatch e Olivia Colman. Além de estrelarem, eles também atuaram como produtores executivos. A química dos dois é surpreendente e rende algumas das cenas mais afiadas do filme. Apesar disso, a divulgação do filme deixou muito a desejar.
Do amor ao ódio
Theo é um homem centrado, atlético e obcecado pelo trabalho. Já Ivy é livre, sonhadora, espontânea e desbocada, com uma idosa maconheira que dá o tom irreverente da personagem. No início, as diferenças parecem se equilibrar. Mas quando ele fracassa em um projeto importante, e ela passa a brilhar depois de uma crítica gastronômica, o jogo vira. Ele se torna dono de casa em tempo integral, e ela se perde no turbilhão de restaurantes e entrevistas.
Essa inversão de papéis mexe diretamente com o ego de Theo. No começo, ele tenta torcer pelo sucesso da esposa, mas a inveja vai tomando espaço. Ivy, por outro lado, acaba absorvida pelo trabalho e não percebe o quanto deixa o marido de lado. Além disso, ela sente que perdeu momentos com os filhos, agora moldados pelo estilo esportivo que ele impõe.

A grande falha dos Roses é clara: falta de comunicação. Entre piadas carregadas de ironia e silêncios cortantes, a relação vai se corroendo. Com o tempo, a admiração se transforma em rancor. E o roteiro, de forma inteligente, expõe como os papéis de gênero ainda ditam expectativas dentro de relacionamentos. Theo critica a ausência de Ivy na família, mas quando os papéis eram invertidos, ninguém questionava. O contraste é tão doloroso quanto cômico.
Críticas reais
É uma boa competição entre qual dos dois é o mais egoísta da relação, além de ser um roteiro bem psicológico, onde o texto também lança diversas críticas sociais sobre o machismo camufladas sob o humor. Theo é tão passivo agressivo cínico quanto Ivy, mas por ela ser mais expansiva e ele mais calmo, ela acaba saindo como a “maluca” e arrogante. A forma como essas percepções se moldam mostra o quanto as aparências pesam na construção de julgamentos sociais.

Ainda que a trama foque nos protagonistas, o filme abre espaço para casais amigos igualmente desajustados. Eles não acrescentam muito à história central, mas servem para dar fôlego e arrancar risadas. Já os cenários, embora poucos, são belíssimos. As praias da Califórnia e os ambientes naturais criam uma atmosfera sofisticada, sem roubar a atenção do drama principal.
O humor é o fio condutor. Porém, Benedict e Olivia não se limitam a piadas ou expressões caricatas. Eles entregam uma verdadeira aula de atuação. A intensidade cresce cena após cena, indo do riso fácil à dor silenciosa. No clímax, a tensão chega ao ponto máximo: o casal, tomado pelo ódio, disputa até a escritura da casa em sequências de puro desespero cômico. Um grande misto de emoções, que se concretiza perfeitamente com a cena final, que apesar de ter tudo indicando o que aconteceria, não deixa de ser chocante.
No fim das contas, Os Roses – Até Que a Morte os Separe consegue ser ácido, engraçado e ao mesmo tempo sufocante. É uma construção diferente, que brinca com o humor enquanto expõe as feridas da vida a dois. Hollywood estava mesmo sentindo falta de uma comédia romântica assim: intensa, divertida e brilhantemente interpretada.
O longa tem sua estreia nos cinemas marcada para esta quinta-feira, dia 28 de agosto. Com toda certeza vale a ida. Nota 4.

