“Hamnet” se destaca por atmosfera sensorial e atuações incríveis
Em “Hamnet”, O’Farrell conta a história dos Shakespeares e seu luto. Em primeiro plano, estão as vidas de Agnes Shakespeare e seus filhos, mas também a obra que o pai enlutado criou a partir de sua dor, e o que isso pode ter significado para o amor entre Agnes e Will. Ao fundo, uma Inglaterra assolada por uma pandemia, com quarentenas, mortes e médicos usando máscaras de proteção contra a peste.
Agora, cinco anos e um mundo inteiro depois, o romance virou filme. O’Farrell escreveu o roteiro com a diretora do filme, Chloé Zhao, que o infundiu com a mesma mistura de mágoa e beleza que pulsava em filmes anteriores como “The Rider”e “Nomadland”. O filme é totalmente permeado por essa mistura de misticismo e naturalismo.
À primeira vista, pareceria quase impossível adaptá-lo para o cinema. Ou, pelo menos, criar um filme à altura do fascínio sensorial tão finamente tecido por O’Farrell. A cineasta Chloé Zhao tentou fazê-lo mesmo assim, e o resultado é um drama majestoso, por vezes lúgubre, cujos minutos finais estão entre os mais comoventes dos últimos tempos.
A compaixão e a curiosidade características de Zhao permanecem, qualidades necessárias para
Hamnet, que poderia facilmente descambar para o sentimentalismo manipulador. Hamnet era, segundo os registros, filho de Shakespeare, que morreu jovem e acredita-se ter inspirado, no mínimo, o título de Hamlet, a história de um jovem príncipe que encontra um fim trágico. O que O’Farrell e agora Zhao imaginam é que a escrita de Hamlet foi um exercício de luto, uma forma de Shakespeare homenagear seu filho e se despedir dele.
Porém, Zhao dedica bastante tempo a esses primeiros dias do namoro entre William (Paul Mescal) e Agnes Hathaway (Jessie Buckley), talvez até demais. Parte desse tempo poderia ser melhor aproveitado explorando os anos em que Hamnet (Jacobi Jupe) ocupou a casa ao lado de sua irmã gêmea, Judith (Olivia Lynes), e sua irmã mais velha, Susanna (Bodhi Rae Breathnach), deixa a sensação querer conhecer e sober sobre Hamnet.

Atuação fenomenal
O que Zhao deixa a desejar, no entanto, é amplamente compensado pelas atuações profundamente comoventes dos dois protagonistas. A morte chocante de Hamnet aos 11 anos destrói a felicidade. Não há nada de sutil nas atuações de Buckley e Mescal ao retratarem essa dor profunda: é intensa, estridente e aguda, e Zhao se detém na dor deles de uma forma que parece desconfortavelmente voyeurística. A perda de um filho é devastadora.
Mescal demonstra uma expressividade muito maior do que a permitida em filmes mais intimistas como Aftersun e A História do Som. É um prazer testemunhar toda a amplitude de seu talento, da sedução à devastação. É Buckley, porém, quem envolve completamente o filme, conferindo fôlego e corpo impressionantes ao retrato da perda feito por Hamnet. Ela é simplesmente maravilhosa. Inspirou elogios efusivos por sua intensidade crua.
Os minutos finais
Mas, apesar de algumas sequências estelares ao longo de todo o filme, Zhao guarda o soco no estômago para o ato final. Há dois momentos nos últimos dez minutos de “Hamnet” que podem ficar com você por meses a fio.
No entanto, as cenas finais do filme, aquelas que nos tiram da admiração e fúria da natureza e retratam a estreia de Hamlet , à qual Agnes comparece a contragosto com seu irmão, Bartolomeu (Joe Alwyn), são as melhores — comoventes, literárias e significativas. A tomada aérea de Agnes e Bartolomeu abrindo caminho pela multidão ansiosa para chegar à frente do palco é uma aula magistral de cinema.
A peça é o que importa, parafraseando a própria peça. E a encenação de “Hamlet” no clímax do filme oferece um argumento poderoso a favor da arte como uma oportunidade de cura. Mas a essência de “Hamnet” reside em sua conexão com “Hamlet”: tanto o livro quanto o filme sugerem que Shakespeare escreveu sua maior peça como uma forma de lidar com o luto pela morte do filho.

