Prêmio Shell de Teatro 2026 tem surpresas em sua 36º edição
Desde 1988, o Prêmio Shell de Teatro reconhece a excelência das artes cênicas brasileiras e acompanha de perto as transformações do teatro no país. Em 2026, a premiação teve sua 36ª edição, e reafirmou seu papel como uma das mais importantes da classe teatral.
A cerimônia aconteceu na noite de 18 de março, no Teatro Paulo Autran, em São Paulo. O evento reuniu artistas, produtores e profissionais do setor em uma celebração que mistura reconhecimento, memória e projeção para o futuro da cena brasileira.
A apresentação da cerimônia ficou por conta da atriz Débora Falabella, vencedora do prêmio de Melhor Atriz em 2025. Ao lado do ator Silvero Pereira, eles conduziram a noite, celebrando tanto novos talentos quanto nomes consagrados.
Uma noite de celebração e homenagem
Neste ano, a premiação prestou uma homenagem especial à atriz Zezé Motta, um dos grandes nomes da dramaturgia nacional. Sua trajetória, marcada por trabalhos emblemáticos no teatro, cinema e televisão, reforça a importância de reconhecer artistas que ajudaram a construir a história das artes cênicas no Brasil.

A trajetória atravessa mais de cinco décadas e se consolida como uma das mais importantes da cultura brasileira. Atriz, cantora e ativista, construiu uma carreira marcada pela versatilidade e pelo compromisso com a representatividade negra nas artes.
Zezé iniciou sua carreira nos anos 1970 e rapidamente ganhou destaque no cinema, especialmente ao protagonizar o clássico Xica da Silva, dirigido por Cacá Diegues. O papel não apenas projetou seu nome nacional e internacionalmente, como também marcou um momento importante para a presença de mulheres negras como protagonistas no audiovisual brasileiro.
Além do cinema, Zezé construiu uma sólida carreira na televisão, com participações em novelas de grande repercussão, como Corpo a Corpo, Sinhá Moça e A Próxima Vítima. No teatro, ela também se destaca por sua presença de palco e por escolhas de personagens que dialogam com questões sociais e raciais. Paralelamente, Zezé desenvolveu uma carreira musical consistente, com álbuns que transitam entre MPB e soul, reforçando sua identidade artística múltipla.
Conheça os principais vencedores da 36° edição do Prêmio Shell de Teatro:
Entre os destaques da noite, Eduardo Moscovis conquistou o prêmio de Melhor Ator pelo júri do Rio de Janeiro, por sua atuação em O Motociclista no Globo da Morte. A conquista marca um momento histórico em sua trajetória, sendo sua primeira premiação teatral em 37 anos de carreira.
Na categoria Dramaturgia, Silvia Gomez venceu pelo júri de São Paulo com Lady Tempestade, enquanto Mauricio Lima e Tainah Longras foram premiados no Rio de Janeiro por Vinte. Já Renato Livera levou o troféu de Melhor Ator em São Paulo por Deserto, e Sirlea Aleixo venceu como Melhor Atriz por Furacão. No júri carioca, o prêmio de Melhor Atriz ficou com Larissa Luz, por Torto Arado – O Musical.
Na Direção, Camila Bauer foi premiada no Rio de Janeiro por Instinto, enquanto Rodrigo Portella venceu em São Paulo com a adaptação de (Um) Ensaio sobre a Cegueira, obra do escritor José Saramago.
O prêmio de Destaque Nacional, que valoriza produções fora do eixo Rio-São Paulo, foi concedido ao espetáculo AKOKO LATI WA NI – Tempo de Ser, da Cia Única de Teatro, de Feira de Santana (BA). Já a categoria Energia que Vem da Gente reconheceu iniciativas de impacto social, premiando o grupo Turma O.K., no Rio de Janeiro, e Leda Maria Martins, em São Paulo.
Destaques do Rio: vitórias celebradas
Entre os premiados da cena carioca, o destaque em Dramaturgia ficou com Mauricio Lima e Tainah Longras, pelo espetáculo “Vinte”, enquanto a Direção reconheceu o trabalho de Camila Bauer em “Instinto”. Na atuação, Eduardo Moscovis venceu como melhor ator por “Motociclista no Globo da Morte”, e Larissa Luz conquistou o prêmio de melhor atriz por sua performance em “Torto Arado – o musical”. Já nas categorias técnicas, Cachalote Mattos levou o prêmio de Cenário por “À Vinha d’Alhos”, Ananda Almeida e Raphael Elias venceram em Figurino por “Negra Palavra – Poesia do Samba”, Marina Arthuzzi foi reconhecida em Iluminação por “Velocidade” e Muato recebeu o prêmio de Música pela direção musical de “Vinte”.

Além disso, na categoria especial Energia que vem da gente, a premiação reconheceu a Turma Ok por sua trajetória de mais de 60 anos como espaço de acolhimento e resistência da comunidade LGBTQIAPN+, unindo arte e convivência social.
No recorte do Rio de Janeiro, a premiação destacou performances que dialogam diretamente com o público e com a força dos espetáculos em cartaz. As vitória repercutiu de forma positiva, especialmente porque o musical se destaca como uma das produções mais impactantes da temporada recente.
São Paulo: escolhas mais discretas
Na capital paulista, a Dramaturgia premiou Silvia Gomez por “Lady Tempestade”, enquanto Rodrigo Portella recebeu o prêmio de Direção por “(Um) ensaio sobre a cegueira”. Nos prêmios de atuação, Renato Livera venceu como melhor ator por “Deserto” e Sirlea Aleixo levou o troféu de melhor atriz por “Furacão”. Já nas categorias técnicas, Luh Maza conquistou o reconhecimento em Cenário por “Carne Viva”, Eder Lopes venceu em Figurino por “Pai Contra Mãe ou Você Está Me Ouvindo?”, Dimitri Luppi e Wagner Antonio receberam o prêmio de Iluminação por “Filoctetes em Lemnos”, e Clara Potiguara ganhou na categoria Música pela trilha original de “Tybyra – Uma Tragédia Indígena Brasileira”.

Além disso, o prêmio Energia que vem da gente foi concedido à pesquisadora e artista Leda Maria Martins, em reconhecimento à sua contribuição decisiva na valorização das performances afro-diaspóricas, articulando produção acadêmica, prática artística e compromisso social.
Por outro lado, a premiação em São Paulo seguiu um caminho mais contido. As escolhas apontaram para um recorte mais técnico e menos pautado pelo impacto popular das produções.
Ainda que os vencedores apresentem qualidade e consistência artística, o resultado geral soou mais discreto quando comparado ao entusiasmo visto na seleção carioca. Dessa forma, a edição paulista não gerou o mesmo nível de repercussão, mantendo um tom mais sóbrio.
Um retrato do teatro atual
Por fim, o Prêmio Shell de Teatro 2026 confirma o papel da premiação como um termômetro da produção cênica brasileira. Ao reconhecer trabalhos diversos, o evento destaca a pluralidade do teatro nacional e suas diferentes linguagens.
Enquanto o Rio celebrou performances marcantes e produções de forte apelo emocional, São Paulo apresentou uma curadoria mais reservada. Ainda assim, ambas contribuíram para um panorama amplo e representativo. Assim, entre consagrações e surpresas, a edição deste ano reforça que o teatro brasileiro segue vivo, provocador e em constante transformação.
