As bandas teen mudaram! Saiba como Katseye e Soulidified estão revolucionando a indústria

As bandas teen mudaram! Saiba como Katseye e Soulidified estão revolucionando a indústria

Durante muito tempo, o mercado de música pop voltado para adolescentes pareceu seguir uma fórmula bastante específica. De um lado, boybands formadas majoritariamente por garotos brancos, com músicas românticas e uma imagem pensada para conquistar fãs jovens. Do outro, girl groups que precisavam se encaixar em padrões estéticos e comerciais muito bem definidos. Mas essa realidade está mudando, e grupos como KATSEYE e Soulidified ajudam a entender o que está acontecendo com a nova geração do pop.

É importante lembrar que grupos musicais formados por artistas negros nunca foram uma novidade. Nos Estados Unidos, nomes como Jackson 5, New Edition e Boyz II Men construíram carreiras gigantescas e influenciaram gerações de artistas. A questão é que, quando pensamos no modelo de boyband que dominou o imaginário adolescente ocidental durante os anos 2010, nomes como One Direction e 5 Seconds of Summer costumam aparecer imediatamente. Eram grupos populares, com grandes fandoms e uma presença marcante nas redes sociais, mas que também representavam um mercado comercial que historicamente privilegiou artistas brancos.

Isso não significa que não existissem outras possibilidades. No universo das girl groups, Fifth Harmony e Little Mix, por exemplo, tinham integrantes negras e conquistaram milhões de fãs. Normani, do Fifth Harmony, e Leigh-Anne Pinnock, do Little Mix, entretanto, também enfrentaram episódios de racismo, inclusive dentro dos próprios fandoms. As duas situações expuseram uma contradição: mesmo quando artistas negras alcançavam o sucesso dentro de grupos populares, isso não significava que seriam tratadas da mesma maneira que suas colegas. O racismo também aparecia na forma como eram comparadas, representadas e recebidas pelo público.

“Minha realidade é sempre me sentir invisível dentro do meu grupo. Parte de mim está totalmente consciente que minha experiência seria mais difícil de lidar se eu tivesse a pele mais escura. Nossa realidade é que não importa o quão longe você acha que foi, o racismo ainda existe.“

Leigh-Anne, do Little Mix, em entrevista.

Nos últimos anos, o K-pop ajudou a transformar a maneira como o público consome grupos musicais. BTS, BLACKPINK e tantos outros artistas sul-coreanos mostraram que o idioma não precisa ser uma barreira para conquistar audiências internacionais. A indústria passou a investir cada vez mais em coreografias elaboradas, identidade visual, conteúdos para os fãs e estratégias digitais. O sucesso desse modelo também abriu espaço para uma nova pergunta: por que o pop ocidental não poderia explorar a mesma lógica global, reunindo artistas com origens e experiências diferentes?

É nesse cenário que surge o KATSEYE. Formado em 2024 por meio de uma parceria entre a empresa sul-coreana HYBE e a gravadora americana Geffen Records, o grupo reúne seis integrantes com diferentes origens culturais. Daniela, Lara, Manon, Megan, Sophia e Yoonchae foram apresentadas ao público por meio do projeto The Debut: Dream Academy, que acompanhou a seleção das integrantes. A proposta combina a estrutura de treinamento do K-pop com a intenção de construir um grupo voltado ao mercado internacional.

Clipe oficial de “Hootie Frutti”, do KATSEYE.

O resultado é um grupo que não depende de uma única identidade nacional para se conectar com o público. As integrantes carregam referências culturais distintas, e isso aparece tanto na composição do grupo quanto na maneira como ele é apresentado. O KATSEYE não inventou a diversidade na música pop, mas ajuda a colocar essa característica no centro de um projeto comercial de grande alcance.

O sucesso do grupo também mostra que existe espaço para uma nova geração de artistas femininas que não precisam se encaixar em um único padrão de aparência ou comportamento. Para muitas jovens, ver artistas com características físicas e origens diferentes ocupando esse espaço pode ter um significado importante. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que representatividade e estratégia comercial não são coisas incompatíveis. A indústria pode enxergar potencial financeiro na diversidade, e isso não anula a importância de ampliar quem consegue ocupar esses lugares.

Se o KATSEYE representa essa transformação entre as girl groups, o Soulidified aponta para um movimento semelhante entre as boybands. Formado a partir do reality show Building the Band, da Netflix, o quarteto é composto por Bradley Rittmann, Shade Jenifer, Malik Heard e Landon Boyce. A proposta recupera elementos do pop e do R&B que marcaram diferentes gerações, mas apresenta uma formação que rompe com a imagem tradicionalmente associada às boybands ocidentais.

A passagem do grupo pelo Rock in Rio, em setembro de 2026, também ajudou a ampliar sua visibilidade. Segundo informações divulgadas pelo Terra, os shows no Brasil foram acompanhados por um aumento de 180% nos streams do quarteto na Deezer. O número mostra como apresentações ao vivo e a repercussão nas redes podem impulsionar artistas que ainda estão construindo seu espaço no mercado internacional.

Outro aspecto interessante aparece no videoclipe de Man Ain’t Me, lançado em outubro. A produção brinca com a ideia de um homem que tenta convencer alguém de que seria um parceiro melhor do que o atual. No entanto, a representação de um homem cantando para outro homem em uma narrativa romântica também abre espaço para discutir como a masculinidade é retratada nesse universo. É importante não confundir a interpretação de um personagem com a sexualidade real do integrante, mas a escolha visual ajuda a ampliar as possibilidades de representação dentro de um gênero historicamente marcado por convenções heteronormativas.

Clipe oficial de “Man Ain’t Me”, do Soulidified.

Vale lembrar que outras iniciativas já tentaram romper fronteiras antes. O Now United, por exemplo, surgiu em 2017 com integrantes de 14 países diferentes e apostou na ideia de um grupo verdadeiramente internacional. O projeto conquistou uma base expressiva de fãs, especialmente na América Latina, e ajudou a mostrar que jovens de diferentes nacionalidades poderiam compartilhar o mesmo espaço na música pop. KATSEYE e Soulidified não surgem do nada, mas fazem parte de uma transformação que vem sendo construída há anos.

Lucas Martins

Nascido em 2002 na cidade do Rio de Janeiro, cresci com paixão pela literatura e pela música. Sou Bacharel em Publicidade e Propaganda pela Unicarioca e futuro pedagogo pela UERJ. No meu tempo livre, gosto de assistir a filmes e acompanhar cada passo dado por Taylor Swift.

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