A Odisseia: fake news geram ódio ao filme. Entenda!
Poucos filmes chegaram aos cinemas em 2026 cercados por tanta expectativa quanto A Odisseia, novo épico de Christopher Nolan. Depois do sucesso estrondoso de Oppenheimer, o diretor voltou aos holofotes com uma adaptação moderna da obra de Homero, recebendo elogios da crítica por sua ambição, fotografia em IMAX, cenas de ação e pela forma como atualiza um dos textos mais importantes da literatura ocidental.
Mas, curiosamente, antes mesmo de o público descobrir se o filme era bom ou ruim, uma parcela da internet já havia decretado seu fracasso. Só que havia um detalhe: boa parte da indignação era baseada em informações falsas.
Durante meses, redes sociais, vídeos e perfis dedicados às chamadas “guerras culturais” espalharam a notícia de que Elliot Page interpretaria Aquiles. A suposta escalação viralizou rapidamente e foi usada como combustível para uma onda de comentários transfóbicos, acompanhados de críticas ao que muitos chamavam de “agenda woke” em Hollywood. A questão é que o ator nunca interpretou Aquiles.
Com a estreia do longa, ficou confirmado que o astro vive Sinon, personagem ligado ao episódio do Cavalo de Troia. Ou seja, milhares de publicações, vídeos e ataques foram construídos sobre uma informação que simplesmente nunca foi verdadeira. E o pior é que a maioria dos influenciadores que fizeram vídeos e matérias sobre o assunto sabiam muito bem disso, mas escolheram o ódio pelo hype.

A confirmação de Lupita Nyong’o em papéis ligados à mitologia grega também provocou uma enxurrada de ataques racistas nas redes sociais. Em vez de discutir a proposta artística de Nolan ou as escolhas criativas de uma adaptação que nunca prometeu reproduzir fielmente a Grécia Antiga, parte da conversa foi reduzida a acusações de “troca de raça” e supostas políticas de diversidade. Enquanto isso, outra parcela da internet passou meses compartilhando montagens, prints sem contexto e até avaliações falsas para sustentar a narrativa de que A Odisseia havia sido rejeitada pelo público antes mesmo da estreia.
Também chama atenção a seletividade dessa indignação. Muitos dos perfis que passaram meses reclamando da presença de atores negros em A Odisseia em nome da “fidelidade histórica” nunca demonstraram o mesmo incômodo com décadas de personagens do Oriente Médio retratados por atores brancos em produções bíblicas, nem com as inúmeras versões de Cleópatra interpretadas por atrizes europeias ou norte-americanas. O cinema sempre tomou liberdades criativas na escalação de seus elencos, normalmente por racismo. Por que só agora isso é um incomodo?
A Odisseia acabou se tornando um retrato do próprio funcionamento das redes sociais em 2026: preconceito disfarçado de opinião, normalmente sem base por algumas curtidas. Afinal, se o Elon Musk paga por visualizações no X/Twitter, por que ter caráter? Não é?
