“Coração Partido” aposta em romance adolescente com tons mais sombrios
Existe uma fórmula bastante conhecida no romance adolescente: a garota nova chega a uma escola, encontra o garoto misterioso e, entre conflitos e provocações, os dois descobrem que existe algo além da antipatia inicial. Coração Partido parte exatamente desse terreno, mas tenta acrescentar uma camada mais sombria à história. Dirigido por Michael Vaynberg, o filme adapta o romance de Anna Jane e acompanha Polina (Veronika Zhuravleva), adolescente que muda de cidade e passa a sofrer bullying no novo colégio.
Nesse contexto, surge Bars (Daniel Vegas), um dos alunos mais temidos da escola. Ele oferece proteção à garota em troca de que ela siga suas regras. O acordo começa como uma espécie de relacionamento de fachada, porém rapidamente ganha contornos emocionais mais complicados. A partir daí, o longa tenta explorar a fronteira entre paixão, dependência e necessidade de pertencimento.
O problema é que a produção nem sempre consegue aprofundar aquilo que sua própria premissa promete. Ao colocar controle e vulnerabilidade no centro da relação, Coração Partido encontra um material potencialmente interessante, mas frequentemente retorna às convenções do romance juvenil.
Um romance que encontra força nos traumas
O principal diferencial de Coração Partido aparece na maneira como o filme incorpora os traumas dos protagonistas à construção do relacionamento. Bars carrega a lembrança do suicídio da mãe, enquanto Polina enfrenta as consequências do divórcio dos pais e a convivência com um padrasto abusivo.
Além disso, Bars também enfrenta problemas financeiros e uma dívida que aumenta a pressão sobre suas escolhas. Assim, o personagem que inicialmente parece apenas o típico valentão da escola ganha outras camadas. Por trás da postura agressiva existe um jovem tentando lidar com perdas, responsabilidades e situações que ultrapassam sua maturidade.
A identidade russa muda o romance
Outro ponto interessante está na ambientação. Embora Coração Partido utilize elementos conhecidos dos romances adolescentes, a produção russa dá à história uma identidade própria. O filme não tenta reproduzir completamente a estética dos romances colegiais norte-americanos e encontra sua personalidade justamente nas particularidades culturais e emocionais de seus personagens.
A dupla principal também contribui para esse resultado. Veronika Zhuravleva constrói uma Polina vulnerável, mas não completamente indefesa. A personagem precisa encontrar maneiras de reagir às situações que enfrenta, enquanto Daniel Vega equilibra a agressividade de Bars com momentos de fragilidade.
Por outro lado, algumas situações poderiam receber maior desenvolvimento. O longa reúne bullying, violência doméstica, dificuldades familiares, problemas financeiros e traumas psicológicos em uma única narrativa. Como resultado, determinadas questões passam rapidamente pela história antes que o espectador consiga absorvê-las completamente.
Quando o coração partido deixa de ser clichê
Ainda assim, Coração Partido encontra seu melhor momento quando entende que o romance precisa funcionar como consequência do amadurecimento dos personagens, e não apenas como objetivo final. O relacionamento entre Polina e Bars ganha significado justamente porque ambos precisam confrontar aquilo que carregam antes de compreender o que sentem.
Até mesmo pequenos elementos ajudam a aproximar Polina do público jovem. A personagem é fã de BTS e o filme incorpora referências ao grupo, incluindo uma cena em que ela dança “Dynamite” com uma amiga e outra em que toca “Butterfly”. O detalhe funciona como parte da personalidade da protagonista, em vez de surgir apenas como referência gratuita.
O desfecho procura dar um significado literal e emocional ao título. Sem revelar os acontecimentos finais, a conclusão reforça a ideia de que amar alguém também envolve lidar com perdas, consequências e escolhas.
No fim, Coração Partido não reinventa o romance adolescente, mas encontra uma maneira interessante de trabalhar uma fórmula conhecida. A produção russa acrescenta uma atmosfera mais dramática à história e aposta menos na idealização do amor perfeito. Para quem procura um romance juvenil com conflitos familiares, amadurecimento e uma dose maior de drama, a produção oferece uma experiência diferente dos títulos mais tradicionais do gênero.
Nota: 3/5
