“Coyote vs. Acme” transforma azar em uma divertida sátira corporativa
Durante décadas, Wile E. Coyote perseguiu o Papa-Léguas com uma confiança que sempre terminava da mesma maneira: uma invenção da Acme explodia, falhava ou se voltava contra ele. Coyote vs. Acme parte justamente dessa premissa conhecida para fazer algo inesperado. Em vez de acompanhar mais uma tentativa frustrada de captura, o longa coloca o Coiote diante de uma decisão inédita: processar a empresa responsável por praticamente todos os seus infortúnios.
Dirigido por Dave Green, o filme mistura animação e live-action e coloca Will Forte como Kevin Avery, um advogado desacreditado que aceita defender o personagem. Lana Condor interpreta Paige Avery, sobrinha de Kevin, enquanto John Cena assume o papel de Buddy Crane, o advogado da Acme.

A premissa funciona porque transforma uma piada repetida há décadas em uma espécie de investigação sobre responsabilidade. Afinal, se os produtos da Acme sempre causaram acidentes, quem realmente merece carregar a culpa pelas derrotas do Coiote? A pergunta parece absurda, mas o roteiro encontra nela uma porta para discutir relações entre consumidores e grandes corporações.
A maior qualidade de Coyote vs. Acme está justamente na capacidade de expandir o universo dos Looney Tunes sem abandonar sua essência. O filme não tenta transformar o protagonista em um personagem completamente diferente. Pelo contrário, mantém sua obsessão pelo Papa-Léguas, sua inteligência exagerada e, principalmente, sua impressionante capacidade de sobreviver às próprias armadilhas.
O longa acrescenta uma dimensão humana ao personagem. Pela primeira vez, o Coiote não aceita simplesmente o próximo fracasso, ele decide reagir. Will Forte aparece como advogado mocinho, mas preguiçoso especializado em acidente cartunesco. Aos poucos, sua relação com o Coiote deixa de representar apenas uma parceria profissional e ganha contornos de amizade.
Lana Condor funciona como uma espécie de contraponto à dupla. Paige enxerga potencial no processo quando Kevin inicialmente prefere tratar o caso como uma pequena disputa. Assim, o filme abusa de tropos já conhecidos e constrói uma equipe improvável que vai precisa enfrentar uma corporação muito mais poderosa e toda de tudo.

Consequentemente, as tradicionais perseguições ganham outro significado. Cada explosão, queda e armadilha que antes servia apenas como gag agora funciona como possível evidência contra a Acme. A ideia parece simples, porém permite que o filme transforme décadas de violência cartunesca em um argumento jurídico.
Ao mesmo tempo, ele brinca com a própria lógica de Hollywood. A história de um personagem que luta contra uma corporação que tenta impedir seu sucesso ganha uma camada curiosamente metalinguística quando lembramos do destino real da produção.
A Warner Bros. inicialmente decidiu não lançar o filme, apesar de a produção já estar concluída. O estúdio pretendia utilizar o longa como baixa fiscal, decisão que gerou forte reação de fãs, profissionais envolvidos na produção e nomes da indústria. Depois da repercussão, a Ketchup Entertainment adquiriu os direitos por cerca de US$ 50 milhões e viabilizou a chegada do filme aos cinemas.
Por isso, Coyote vs. Acme funciona melhor quando abraça sua natureza de comédia familiar sem tentar parecer mais sofisticado do que precisa. O filme tem humor físico, referências aos desenhos clássicos e uma história de amizade que consegue equilibrar a loucura das situações.
A presença de outros personagens dos Looney Tunes também ajuda a preservar a identidade da franquia. Pernalonga, Patolino, Gaguinho, Hortelino Troca-Letras, Frajola e outros personagens aparecem no longa, com Eric Bauza entre os principais dubladores.

Ainda assim, o resultado encontra um equilíbrio agradável entre nostalgia e novidade. Coyote vs. Acme entende que não precisa abandonar aquilo que tornou o personagem famoso para contar uma história diferente. Basta fazer uma pergunta que parece óbvia depois de tantos anos: e se, finalmente, o Coiote resolvesse processar a Acme?
No fim, a maior vitória do filme talvez aconteça antes mesmo de sua história começar. Depois de quase desaparecer por uma decisão corporativa, a produção chegou às telas justamente como um exemplo de resistência. O personagem que nunca consegue alcançar o Papa-Léguas finalmente consegue uma vitória — e, desta vez, não precisa correr atrás dela.
Nota: 4/5
